Com o tempo todo tipo de leitura me fascinava. Ao me deslocar de onibus, pela janela lia tudo que podia. Que benção ter aprendido a gostar de ler tão cedo.
Com o tempo vieram revistas e livros. Hoje constato que as leituras me mais me agradam são aquelas que gostaria de ter escrito.
Comecei a escrever um livro autobiográfico e decidi publica-lo aos poucos neste blog. São histórias reais, com as devidas conclusões. Aliás, as histórias são mesmo todas reais e as conclusões seguem a filosofia de Raul Seixas. "Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".
Conforme o tempo passa as conclusões mudam. He He He
Still Without Title, By Hamilton Pereira
CAPÍTULO I
Manhã de domingo do dia 19 de outubro de 2000, vestindo macacão azul, com capacete especifico e com um pára-quedas preso as costas, com certo desconforto em parte pelo meu tamanho xgg, a porta estilo asa se fecha, encostando-se a meu ombro esquerdo. Meu ombro direito esta encostado no assento do piloto, estou sentado com as pernas apertadamente esticadas no assoalho do pequeno avião, percebo o piloto falando pelo radio e recebendo autorização para o vôo. Vruummm, ouço o barulho forte da aceleração e sinto os primeiros movimentos da aeronave pela trecho de grama indo em direcao a pista. Olho a minha volta e confiro o quadro, em um espaço menor que o interior de um fusca, alem do piloto estamos em 3 alunos mais o instrutor Geraldo em direcao a etapa pratica do curso de para quedas ASL ou salto com fita.
Durante um dia inteiro, aprendemos lições sobre a teoria do pára-quedismo, sua origem, evolução, velame, ventos, pontos A,B,C, navegação, pouso e ações em caso de pane. Por diversas vezes praticamos imaginariamente checagem após o salto – CELA - um mil, dois mil, treis mil....... Velame retangular aberto, células infladas, linhas esticadas e desembaralhadas...!!
Em caso de pane – procedimento de emergência – descarta-se o principal e aciona o reserva rapidamente - olha, pega, olha, puxa, pega, puxa!
Ganhando a pista a aeronave dirige-se lentamente ao final para virar e iniciar a decolagem. Estou estático, com poucas possibilidades de movimento, olhando por cima de meu ombro esquerdo vejo de relance a reta da pista, motores aceleram e começamos a ganhar velocidade e decolamos sob um barulho constante que tornava qualquer conversa muito difícil.
Enquanto ganhava altura, ficava lembrando as lições do dia anterior repassadas pelo instrutor Evaldo que ficou em terra. Entre os vários comentários sobre os riscos envolvidos, uma coisa é comprovada, os acidentes com pára-quedas são muito raros. Para situações de perigo existe o reserva e muitos atletas experientes, com mais de 500 saltos de carreira jamais tiveram necessidade de utilizar esse recurso. Aproximadamente 10 minutos ganhando altura, fazendo uma espiral que calculei ter uns cinco quilômetros de diâmetro, pela troca de olhares entre o Gera e o comandante Bardini, percebi que seria a passada em que seria lançado.
Após a autorização numa troca de olhares e algumas palavras incompreensíveis abafadas pelo barulho do motor ditas pelo comandante, o Gera, estica-se por cima de mim destranca a porta e a levanta travando-a na asa da aeronave deixando meu ombro esquerdo sem apoio.
Pronto pro salto? Pergunta me olhando nos olhos...Sim, respondo exatamente como havíamos praticado no chao no dia anterior. Altitude? Olho o altímetro e ele marca em torno de 4.450 pés. Olhando nos olhos do Geraldo respondo - Quatro mil e quinhentos pés. Tinha de fazê-lo olhando nos olhos, confirmando minha lucidez no momento.
......continua
Pés pra fora!! Recebo o comando. Encolho as pernas para alcançar a porta, me ajeito e sento no assoalho da aeronave com os pés pra fora, pisando num degrau externo.
Ao montante! Recebo o novo comando, que consiste em esticar o corpo para a esquerda e para fora da aeronave, segurando naquela barra que liga o corpo do avião a asa, pisando com o pé esquerdo numa saliência própria para isso e a perna direita suspensa no ar.
Ao alcançar o P.S., um ponto imaginário que considera a velocidade do vento, o local de pouso e outras informações de conhecimento do instrutor, é dado o comando, VAI!
Nessa modalidade de curso, não saltamos, apenas soltamos as mãos do puta-merda.
CELA!!!!!!!!!! Ushhhhhhhhhhhh
-Um mil........ploc!!!!!!!!! Suspenso no ar sentindo uma leve brisa inicio o check!
Chama atenção o velame multicolorido!!!!
Velame retangular aberto, células infladas, linhas esticadas e desemb?
desemb? desemb? Constato que estão completamente embaralhadas.
Tenho lembranças de alguns fatos que ocorreram na minha vida desde os dois anos de idade, alguns deles bem desafiantes. Um dia, com quatro anos, me vi encarando um monte de mais ou menos um metro e meio de altura de sepilho, uma serragem mais grossa, resíduo que uma madeireira das proximidades da minha casa descartava e queimava. Naquele dia estava calcando um par de sapatos de plástico e por razoes que nunca saberei, me senti desafiado por aquela montanha de sepilho a passar correndo por cima dela. Tomei distancia, olhei o trajeto que faria durante minha disparada e conferi que não havia ninguém por perto naquela pacata vila de operários de uma mina de carvão no norte do Paraná de nome Cambuí onde meu pai era um deles.
Agora sei que o sepilho não queima com chamas, ele vai se consumindo com brasas por dentro. Logo nas minhas primeiras passadas senti o pé queimar porem estava embalado e não dava pra parar. Quando pequei velocidade meu destino estava traçado. Passei correndo por cima do monte e com os pés em brasa me joguei no chao e rapidamente tirei os sapatos. Com cuidado limpei as feridas nos dois pés, algumas delas me acompanham ainda hoje, 45 anos depois. Olhei para o par de sapatos amolecidos e distorcidos, aquilo me doeu.
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1966 - Hamilton com irmã mais nova no colo (Eliane) e todos os outros irmãos, Ademir, Edna, (Edson e Elcio In Memorian)
Engraçado, desse dia em diante aquelas cicatrizes nos pés me fizeram sentir-me outra pessoa. Hoje percebo que desde cedo tenho sido uma pessoa que gosta de desafios e minha forma de aprender consiste em vivenciar. Prefiro a pratica a teoria.
Analisando um pouco os estilos das pessoas com as quais tenho convivido nesses anos, percebo que temos tendências a agir e reagir de determinada forma, com determinado padrão, padrão esse que vai se construindo na medida em que amadurecemos e quando menos percebemos, transformamos nossos corpos em condutores de uma massa de informações que governam nossos dias.
Prestes a completar cinqüenta anos de idade me vejo assistindo o filme que construí, procurando identificar quanto há de valor nessa minha existência.
CAPÍTULO II
Naquele silencio do espaço, os únicos sons que ouvia eram do sibilar do arrasto do vento em meu capacete e latidos de cachorros. Em nenhum momento houve uma fração de segundos sequer onde não tenha tido perfeita lucidez do que estava acontecendo.
No dia anterior, ao final da parte teórica do curso de pára-quedismo, conclui que o curso basicamente ensina o que fazer se algo der errado.
As cordas estavam embaralhadas e não tinha acesso aos batoques, os punhos que permitem a navegação do pára-quedas. Estava descendo sem controle. Conferi a altitude, estava a +- três mil e oitocentos pés. Tinha algum tempo para analisar bem o que fazer.
Era um dia de céu claro e azul, olhei para baixo e identifiquei a pista de pouso e o telhado do aeroclube, olhando para o horizonte podia ver a ilha de santa Catarina e em seguida o morro da pedra branca. Dei-me conta que estava girando lentamente.
Ouvia um suuuuuuuuuuuu do atrito do vento com minha cabeça.
Pelo radio do capacete ouvi o Evaldo – Hamilton, use uma referencia e faca uma curva de 90 graus à direita! Só posso escutá-lo, não há retorno verbal e ele não podia saber o que estava acontecendo.
- Hamilton se estiver me ouvindo balance as pernas. Isso posso fazer, balancei as pernas e ele disse, ótimo, bom saber que está tudo OK! Siga minhas instrucoes.....
Enquanto rolava aquela comunicacao, procurava curtir o visual, olhando até onde meus olhos conseguiam, sabendo que cada segundo era valioso. Notei que aos poucos o giro estava tornando-se mais rápido.
Hamilton – procedimento de emergência ordenou o Evaldo pelo radio.
Olhei no altímetro, três mil pés! De acordo com o curso, o limite para acionar o reserva com segurança era de dois mil e quinhentos pés, ainda tinha um tempo.
- Hamilton, procedimento de emergência!!!! ouvi o enfático Evaldo novamente pelo rádio.
É claro que por uma fração de segundos me veio a lembranca que atletas profissionais com mais de quinhentos saltos nunca terem utilizado o reserva e Eu, em meu primeiro salto, um aluno que fez o curso teórico no dia anterior estava prestes e comandar o paraquedas reserva
Uma ultima olhada no visual, concentração e – olhapegaolhapuxapegapuxa!!!!!!
Queda livre de uns 4 segundos, Plic – ouço o barulho de uma mola nas minhas costas jogando o reserva fora do saco e sinto um forte tranco.
Olho para cima, check - velame retangular aberto, células infladas, linhas esticadas e d-e-s-e-m-b-a-r-a-l-h-a-d-a-s.
Pelo rádio o Evaldo comanda - Hamilton, curva de 90 graus à direita. Uso uma referencia e faço a curva. Muito bem, diz ele. Agora 90 graus à esquerda. Obedeço. Mantenha o controle, boa navegação e faca os pontos A, B e C e bom pouso.
Ao atingir 800 pés estava me posicionando sobre o telhado do aeroclube, ponto A, desenhei as referencias dos pontos B e C e lentamente me aproximava do chao. Novo comando do Evaldo - FLAIR! Puxo os batoques com força.
Foi um pouso razoável. Me coloquei de pé, estava no chao, em segurança e enquanto puxava as cordas recolhendo o velame, percebi algumas pessoas do lado de fora da cerca me aplaudindo, como se fosse um show! Eles não podiam imaginar a experiência que havia vivido.
Quando entrei no galpão onde estavam dobrando os paraquedas, notei que o velame que havia descartado estava cuidadosamente depositado no chão e sendo analisado pelos veteranos presentes. Algumas pessoas vieram até mim e perguntaram vários ao mesmo tempo: Como foi? Assustado? O que aconteceu? Vai saltar de novo?
Minhas respostas eram mais ou menos: Foi tranqüilo! Tinha tudo sob controle o tempo todo!!! – Sério????
Os lançamentos continuaram e antes do final da tarde daquele domingo todo nosso grupo de 8 alunos tinham saltado com segurança e cada um havia criado mais um capitulo de sua história pessoal.
No decorrer dos dois meses seguintes, fiz mais 3 saltos, todos normais, e temporariamente interrompi minha carreira de paraquedista.
CAPÍTULO III
Um dia logo ao acordar, minha mãe me ajudou a lavar o rosto numa bacia esmaltada(naquele lugar e época, nao havia banheiros dentro de casa e me recordo do comando de meu pai dizendo: - lave os pé e as mao antes de dormir) cheia de água morna e após me enxugar e me dirigir a mesa ela me deu um pedaço de bolo, ofereceu café e disse: “Feliz Aniversário” hoje você faz cinco anos.
Lembro de ter olhado para ela tentando entender o que era aquilo. Durante alguns dias fiquei analisando o significado do aniversário e procurando compreender alguma coisa sobre aquilo???.
A partir dali passei a compreender um pouco o processo..... de marcar o tempo que se vive.
Foi o último ano no interior do Paraná. Por insistência de minha mãe, meu pai vendeu o sítio de café que tinhamos mudamos para a capital, Curitiba.
Logo que chegamos em Curitiba, um taxi estilo ford bigode nos levou da rodoviária até nossa moradia provisória. Fomos morar por uns dias no apartamento da Tia Elza.
Era final de tarde e lembro que olhando para o horizonte só enchergava muitos prédios, com muitas luzes acesas. Tudo era muito diferente, estranho e irreal.
Na época parecia bem maior, mas era um apartamento pequeno e ficávamos nós 4 no mesmo quarto. Logo nos mudamos para uma “meia-água”num lugar chamado vila feliz, onde ficamos por pouco menos de um ano. Mudamos de novo para outra “meia-água”na vila araçá, também quase um ano, e em seguida fomos para a Vila Nossa Senhora da Luz, onde dos 7 aos 17 vivi uma época de muito aprendizado, indo da infância direto para a vida adulta.
Dos dez aos doze anos de idade estudava no período da manha, e a tarde, para ganhar algum dinheiro, tinha um trabalho – era dolezeiro. Vendedor de picolés; ou, para quem mora na periferia de Curitiba, dolés.
Lembro que a relação de emprego era a seguinte: entregava ao sr Adauto, dono da sorveteria, meu registro de nascimento, ele me concedia uma caixa de isopor onde acondicionava de dez a quarenta picolés. Utilizando um apito próprio, reconhecido por toda a população, caminhava pelo bairro fazendo as vendas. Fiz isso durante dois anos.
Minha mãe era zeladora no DNOS e antes de sair de casa, deixava feijão e arroz prontos. Eramos uma família de quatro meninos e duas meninas. Na hora do almoço, o mais velho, ou seja, Eu, tinha a responsabilidade de esquentar o almoço e servir aos mais novos, inclusive a Eliane, nossa irmã caçula de menos de um ano de idade.
Estava jogando bola com amigos na praça central e alguém me avisou que minha mãe estava me chamando. Tinha doze anos de idade. Cheguei em casa e estava lá o Tio João Batista Lopes Filho, marido da Tia Elza.
Ele conversou comigo e disse que no Hotel onde trabalhava havia uma vaga de office-boy e que se eu quisesse seria apresentado para ocupar a vaga.
Aceitei de imediato e em Outubro de 1971 obtive meu primeiro registro em carteira.
Lembro que em novembro, mês em que eu completaria 13 anos era o mesmo mês de aniversário do Hotel e houve um jantar de comemoração. Esse jantar foi o dia em que vi a maior quantidade de comida na minha frente. O Prato principal era risoto, pena que arranhei minha imagem ao virar um copo de refrigerante na mesa. Nao estava acostumado com tanta coisa ao mesmo tempo.
Naquele período, na função de office-boy, uma das atividades mais importantes que me era conferido pela natureza do serviço, consistia em levar diariamente até o DOPS, as fichas de todos que se hospedavam no Hotel. Ainda nao sabia exatamente o significado da palavra repressão. O que me lembro era que tinha acesso ao prédio do DOPS e juro que lá dentro, algumas vezes ouvi sons estranhos, mas dava o fora rapidamente.
Só mais tarde vim saber o significado daquelas quatro letras e o que representavam.
Numa manhã, fui chamado a recepção do Hotel e havia uma família fechando a conta prestes a viajar. Era um casal com três filhos, o mais velho com uns 12 anos. Notei que a mulher segurava nas mãos um baldinho de isopor, dirigiu a palavra a minha pessoa como se fosse pedir algo importante: filho, por favor, preciso que voce coloque gelo nesse baldinho e dentro coloque esse remédio, me mostrando um vidrinho escuro do tamanho de e um polegar.
Apanhei o baldinho e o vidrinho de remédio me dirigindo a copa. Na copa, de dentro da geladeira apanhei umas tres forminhas de gelo e no balcão iniciei a operação de soltar os cubos de gelo dentro do baldinho. Feito isso, analisei o vidrinho e percebi que para colocar o remédio no gelo teria de romper um anel de alumínio que cobria a tampinha de borracha vermelha. Utilizando uma faca, abri o vidro de remédio e despejei no baldinho de gelo, exatamente como havia entendido. Tampei o baldinho, voltei a recepção, entreguei a encomenda e voltei para minhas tarefas.
Mais ou menos umas três horas depois novamente me chamam a recepção e vejo a mesma família me aguardando. A senhora me fita e pergunta: Voce tem certeza que colocou o remédio no baldinho? Fiquei assustado com a seriedade da pergunta e olhando nos olhos daquela senhora, afirmei que sim!
Ela disse: Mas olha, quando chegou a hora e fomos utilizar o remédio não havia nada, pode olhar! Mostrando o baldinho já com parte do gelo derretido percebi que não havia vestígio nenhum daquele liquido escuro que derramei ali dentro. Neste momento compreendi a besteira que havia cometido. Assustado com as conseqüências caso meu erro fosse descoberto, não sabia como me denunciar. Numa fração de segundos a senhora repetiu a pergunta: Voce tem certeza que colocou o remédio aqui? Respondi com firmeza – Sim, tenho certeza.
Minha resposta foi convincente e percebi que conversando entre eles, decidiram ir atrás de um novo frasco, enfatizando que se tratava de um remédio raro e que não seria facil consegui-lo, foram embora.
Naquele dia pensei muito na responsabilidade que tinha quando era atribuído a mim qualquer missão e até hoje, quando me lembro desse episódio torço para que tenham conseguido resolver o problema que criei, assim como muitas vezes imagino quantas vezes por dia alguém faz um comando pensando que o outro entendeu, a outra parte faz o que interpretou que deveria ter feito, o tempo e custo adicionais que se gasta para reparar, isso se as conseqüências não forem mais graves.
Janeiro de 2008, logo após ter sido “plantado” para cumprir minha quarta etapa da “Busca da Visão” ficando em silencio na montanha por 13 dias e 13 noites, estava pensando numa forma de marcar os dias. Observei que uma das pontas do fio que amarrava os rezos tinha em torno de um metro e me ocorreu o seguinte: todo dia pela manha faria um nó naquele fio e assim teria uma forma de controle do calendário. No dia seguinte ao fazer a marcação percebi que com um nó ficaria quase imperceptível então continuei fazendo nós e mais ou menos no quinto tinha uma boa marcação. Tornou-se um ritual, todo dia após acordar era a primeira coisa que fazia.
A “Busca da Visão” é um processo milenar desenvolvido pelos índios americanos com o objetivo de permitir que o jovem índio ganhe a vida adulta. Trata-se de um processo de auto-conhecimento reconhecido pelo nome de Caminho Vermelho. Ao todo são quatro etapas realizadas uma vez por ano, onde primeiro se participa de um rituais de medicina, purificação, retirada da palavra e encaminhamento a um local da montanha onde se permanece uma vez por ano por 4, 7, 9 e 13 dias e noites.
CAPITULO 6
Toda a expectativa do mundo naquele passeio de moto pela serra. Nem mesmo o frio poderia atrapalhar a experiencia, pois era a primeira vez e todos meus sentidos estavao para a experiencia com a moto, totalmente egoista com a viagem e seus misterios.
Tudo cercado de expectativa, desde o momento de engatar primeira marcha ainda na garagem do predio.
E muito interessante ter sua esposa, companheira de tantos anos, logo ali nas suas costas, numa intimidade unica, continua e em total cumplicidade.
Para mim era muito mais que um beijo, era uma conexao total, intencional e duraria quase 24 horas.
O que sera que e preciso para provar seu amor depois de mais de 20 anos de convivio. Muitas vezes, a experiencia que vivemos e dificil de exprimir em palavras e tentar fazer isso seria diminuir e desvalorizar aquele fragmento de tempo.
Estar juntos daquela forma e desafiador. E uma experiencia unica, por mais que se repita toda semana, e como as ondas do mar, nunca sao iguais, nunca se repetem.
Cada dia é unico.
Estar na presenca de alguem que se ama e mesmo asim conseguir ficar so, e a mesma coisa que, mesmo compartilhando a presenca de alguem que se ama, olhar e sentir as coisas de forma unica. Imagine duas pessoas andando de maos dadas numa praia deserta, cada uma olha e sente as coisas atraves de seus sentidos e muitas vezes pode-se dizer que seus pensamentos estao distantes entre si, o que nao quer
dizer que estao longe uma da outra. Respeitar isso e tao natural quanto beber agua.
Compartilhar a existencia com outra pessoa por uma vida significa de certo modo dividir suas crencas e ceder pelo bem da convivencia. Somos como estrelas no ceu, cada um de nos tem luz propria e nao se tem noticias que uma estrela tenha tentado apagar outra para aparecer mais.
Quando eventualmente uma desaparece, significa na verdade que tinha deixado de existir luz ha milenios, ou seja, mesmo que acabe a energia, a luz ainda continua por varias existencias e nao ha razao alguma para deixar admirar a luz emitida pois ela foi gerada como um milagre e deve ser admirada por isso.
Nos nossos piores momentos, e incrivel como nossas emoções tomam conta de toda racionalidade e de assalto assumem nossas acoes, agindo atraves de uma linha de explicacoes onde so existe uma verdade, aquela mais conveniente pro ego, comandado pelas emocoes.
Nao importa o quanto soa ilógico o rumo que tomamos, uma teimosia incontrolavel designa direcoes onde parece que ignoramos o status quo e cultivamos qualquer risco, chegando a idolatra-lo.
As palavras sao como notas musicais, para conhecer tem-se que olhar uma a uma e para gerar a melodia, tem-se que tocar o conjunto. Sera um erro tentar julgar a melodia analisando uma nota.
Uma vida e como a partitura de uma sinfonia musical desenhada nas planicies do planeta. Para olhar, deve-se subir quase na altura das nuvens.
Nao sei se completamos nossa sinfonia um dia, acredito que nao, acredito que estamos completando uma estrofe e nunca antes tinhamos parado para olhar do jeito que estamos olhando........